“O verdadeiro legado de um treinador mede-se pela pessoa que ajuda a formar”

À Conversa com Hugo Nunes:

“O verdadeiro legado de um treinador mede-se pela pessoa que ajuda a formar”

O futebol de formação e o futebol feminino em Portugal vivem momentos de profunda reflexão e transformação. Para analisar os desafios metodológicos, a gestão de expectativas, a prevenção de lesões e o real impacto social do desporto, estivemos “À Conversa com Hugo Nunes”. Nascido em 1988 em Sanfins de Ferreira (Paços de Ferreira), Hugo Bernardino Vilela Nunes carrega um currículo de peso no panorama nacional: licenciado em Treino Desportivo (especialização em Futebol) , mestre em Condição Física e Performance , e com o curso de Coordenação de Academias pela FPF , conta ainda com várias formações em alto rendimento, análise por GPS e scouting.

Ao longo do seu percurso, dividiu-se entre a coordenação técnica (Rio Ave e C.D. Águias de Eiriz) , o treino de campo (F.C. Paços de Ferreira, S.C. Braga, A.R.S. Martinho e Academias do Sporting CP) , a observação/scouting (Sporting CP) e a preparação física em contexto profissional na Segunda Liga (Lank Vilaverdense e Trofense). Atualmente, alia a ciência de vários artigos publicados à prática desportiva através da marca Core HN Sports Performance.

Nesta entrevista exclusiva, o técnico rompe barreiras, desmonta preconceitos e aponta o caminho para o futuro do desporto-rei.

Hugo Nunes Treinador (Futebol Feminino)

 

O Equilíbrio na Formação: Prazer vs. Exigência

 

Rui Hélder Gonçalves (RHG): Qual é o maior desafio ao conciliar a evolução técnica e tática dos jovens jogadores com a vertente puramente lúdica e de diversão que a idade exige?

Hugo Nunes (HN): O maior desafio é, sem dúvida, encontrar o equilíbrio entre a exigência e o prazer pelo jogo. O futebol de formação não pode, de forma alguma, ser encarado como uma versão do futebol profissional. As crianças e os jovens aprendem melhor quando se divertem, quando experimentam e quando sentem liberdade para errar. A evolução técnica e tática deve surgir integrada em contextos de jogo estimulantes, onde a curiosidade e a criatividade sejam valorizadas. O nosso objetivo é formar jogadores competentes sem retirar a paixão que os trouxe para o futebol. Quando conseguimos que um atleta aprenda com um sorriso no rosto, estamos a construir uma ligação mais profunda com a modalidade.

RHG: Como gere a gestão de expectativas dos pais dos atletas e de que forma isso influencia o rendimento ou a pressão sobre os jovens em campo?

HN: Os pais são fundamentais no processo formativo. Procuro manter uma comunicação transparente e pedagógica, explicando objetivos, metodologias e etapas de desenvolvimento. Muitas vezes, a ansiedade dos pais nasce da vontade de ver os filhos ter sucesso a todo o custo, mas é importante recordar que cada atleta tem o seu ritmo de crescimento. Quando as expectativas são excessivas, os jogadores tendem a jogar com medo de errar em vez de jogar para aprender. O nosso papel é criar um ambiente onde os pais compreendam que o desenvolvimento humano e desportivo vale mais do que qualquer resultado.

RHG: No futebol de formação, o resultado do jogo deve ficar sempre em segundo plano relativamente ao desenvolvimento individual? Como lida com a frustração dos atletas após uma derrota?

HN: O resultado tem valor, mas não deve ser o principal indicador de sucesso. Uma equipa pode perder um jogo e, ainda assim, ter dado passos enormes na aprendizagem. Após uma derrota, procuro transformar a frustração numa oportunidade de crescimento. Analiso com os atletas aquilo que foi bem feito, o que pode ser melhorado e como cada experiência contribui para evoluirmos juntos. Aprender a perder é tão importante como aprender a ganhar com humildade. A derrota pode ser uma das maiores ferramentas de desenvolvimento quando é encarada da forma correta.

RHG: Que competências humanas e valores sociais (como a disciplina e o espírito de equipa) considera fundamentais transmitir nesta etapa e que servirão para lá do futebol?

HN: Disciplina, responsabilidade, respeito, empatia, resiliência e espírito de equipa são valores essenciais. O futebol é uma escola de vida. Nem todos serão jogadores profissionais, mas todos serão cidadãos. A capacidade de trabalhar em equipa, respeitar todo o tipo de diferenças, lidar com desafios e assumir compromissos terá impacto nas suas vidas, seja na componente académica, profissional ou pessoal. O verdadeiro legado de um treinador mede-se muitas vezes pela pessoa que ajuda a formar e não apenas pelo atleta que desenvolve.

RHG: De que forma se adapta a intensidade e a metodologia de treino para evitar o burnout (esgotamento) precoce ou lesões graves em jovens em fase de crescimento?

HN: É fundamental individualizar o processo de treino, respeitando a idade biológica e não apenas a idade cronológica. Monitorizamos cargas, períodos adequados de recuperação e valorizamos o descanso como parte do treino. Além disso, incentivamos a prática diversificada e evitamos a especialização excessivamente precoce. O objetivo é formar atletas saudáveis, motivados e preparados para as exigências da modalidade.

 

A Realidade e a Evolução do Futebol Feminino

 “O futebol feminino precisa de continuidade, estabilidade e confiança. O crescimento não depende apenas de recursos financeiros, mas de uma visão estratégica a longo prazo.”

— Hugo Nunes

 RHG: Quais foram as principais barreiras ou preconceitos que encontrou ao assumir o treino de uma equipa feminina e como vê a evolução da modalidade nos últimos anos?

HN: Durante muitos anos existiu a ideia errada de que o futebol feminino era uma modalidade meramente secundária. Felizmente, essa visão está a desaparecer aos poucos. As principais barreiras estiveram relacionadas com a falta de investimento, de visibilidade e de reconhecimento. No entanto, a evolução tem sido positiva. Hoje vemos mais atletas, mais qualidade competitiva, melhores estruturas e uma crescente valorização no futebol feminino. Ainda existe um caminho longo a percorrer, mas a modalidade vive um momento de transformação.

RHG: Do ponto de vista metodológico e de comunicação, sente que existem diferenças significativas na forma de liderar e motivar um balneário feminino em comparação com o masculino?

HN: Mais do que diferenças de género, existem diferenças individuais. Cada grupo tem a sua identidade e dinâmica própria. No entanto, considero que a comunicação assume um papel importantíssimo no futebol feminino. As atletas valorizam frequentemente relações de confiança, clareza e proximidade. A liderança deve ser adaptável, humana e centrada na compreensão das atletas. O segredo está em conhecer quem lideramos.

RHG: O futebol feminino tem especificidades biológicas e fisiológicas próprias. Como é planeada a preparação física e a prevenção de lesões (como as roturas de ligamentos, tão comuns nas atletas)?

HN: A preparação física deve assentar em evidência científica e numa abordagem multidisciplinar. Existe uma atenção especial ao fortalecimento muscular, ao controlo neuromuscular e à estabilidade articular, especialmente do joelho, dada a incidência elevada de lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) no futebol feminino particularmente. Colocamos em prática programas específicos para todos os escalões de formação, monitorização individual de dados de saúde e bem-estar. Educar as atletas para que este tipo de prática seja repetido e reforçado a longo prazo é fundamental, para que estejam preparadas para todos os contextos futuros. O objetivo é não apenas melhorar o rendimento, mas também proteger a saúde da atleta.

RHG: Sente que a falta de referências profissionais visíveis na comunicação social ainda afeta a ambição das jovens jogadoras, ou o panorama atual já lhes permite sonhar com uma carreira profissional?

HN: A visibilidade continua a ser determinante. As jovens precisam de referências que lhes mostrem que é possível sonhar e ser profissionais. Felizmente, hoje existem mais exemplos de sucesso, mais transmissões televisivas e mais cobertura mediática, contudo, ainda há espaço para crescer. Quando uma criança vê atletas femininas reconhecidas pelo seu talento e profissionalismo, passa a acreditar que também pode alcançar esse patamar. A representação cria ambição e a ambição gera progresso.

RHG: O que considera que ainda falta, estruturalmente (apoios, condições de treino, visibilidade), para que o futebol feminino atinja o mesmo patamar de desenvolvimento e sustentabilidade que o masculino em Portugal?

HN: É necessário continuar a investir em infraestruturas, formação de treinadores, condições de treino, profissionalização e visibilidade. Também é importante organizar e fortalecer as competições que ainda são pobres ao nível da quantidade de jogos, e criar percursos sustentáveis para as atletas desde a formação até ao alto rendimento. O crescimento não depende apenas de recursos financeiros, mas também de uma visão estratégica a longo prazo. O futebol feminino precisa de continuidade, estabilidade e confiança.

 

Diagnóstico ao Futebol Nacional e o Impacto das Redes Sociais

Erro Comum na Formação Consequência Direta Foco Correto
Confundir Formação com Seleção Decisões que favorecem atletas mais desenvolvidos fisicamente no presente. Espaço de aprendizagem, experimentação e desenvolvimento do potencial futuro.

 

RHG: Na sua opinião, qual é o maior erro que ainda se comete no futebol de formação em Portugal?

HN: Talvez o maior erro seja confundir formação com seleção. Muitas vezes procura-se ganhar imediatamente em vez de desenvolver o potencial dos jovens. Isso leva a decisões que favorecem atletas mais desenvolvidos fisicamente no presente, mas não necessariamente aqueles com maior margem de crescimento futuro. A formação deve ser um espaço de aprendizagem, experimentação e desenvolvimento, não apenas de uma busca incessante de resultados.

RHG: Já teve algum(a) atleta que o tenha marcado particularmente, não necessariamente pelo talento, mas pela evolução humana ou pela superação? O que aprendeu com esse caso?

HN: Ao longo do meu percurso surgem vários exemplos que, inclusive, me serviram de inspiração. Recordo atletas que começaram com enormes dificuldades de confiança, limitações técnicas ou contextos pessoais desfavoráveis e que, através do trabalho diário, conseguiram transformar-se, ultrapassando todos os problemas e construindo um futuro. Hoje em dia, alguns são profissionais no futebol, outros gestores de empresas, cada um na sua área. Esses casos reforçam uma lição fundamental: o talento é importante, mas a perseverança, a atitude e a capacidade de acreditar em nós mesmos faz muitas vezes a diferença. Como treinador, aprendi que nunca devemos definir o potencial de alguém demasiado cedo.

RHG: Com o crescimento das redes sociais e da exposição mediática precoce, sente que os jovens atletas lidam hoje com pressões diferentes das gerações anteriores?

HN: Sem dúvida. As redes sociais criaram oportunidades de visibilidade, mas também novas formas de pressão e, sobretudo, de distração. Muitos jovens sentem necessidade de validação constante e podem comparar-se excessivamente com outros atletas. É fundamental educá-los para uma utilização equilibrada das redes sociais e ajudá-los a compreender que o desenvolvimento real acontece no trabalho diário, não no número de seguidores. O foco deles deve permanecer no processo, no treino, no que fazem para atingirem os seus objetivos e não apenas na imagem que querem transparecer para fora.

RHG: Se pudesse mudar uma coisa de forma imediata no futebol feminino português, qual seria a prioridade absoluta?

HN: A prioridade seria garantir condições estruturais equivalentes para todas as atletas, independentemente do clube onde jogam. O talento existe em todo o país, mas as oportunidades nem sempre são iguais para todas. Melhorar recursos, acompanhamento técnico, apoio médico e condições de treino teria um impacto imediato na qualidade da modalidade e no crescimento sustentável do futebol feminino. A par disso, uma reformulação urgente dos quadros competitivos nacionais, que estão muito aquém para quem quer valorizar o futebol feminino.

 

Uma Mensagem para a Sociedade: “Não permitam que limitem os vossos sonhos”

 RHG: Olhando para o futuro, que mensagem ou reflexão final gostaria de deixar para quem nos ouve ou lê — sejam pais, atletas, dirigentes ou adeptos — sobre o impacto social que o futebol de formação e o futebol feminino podem e devem ter na nossa sociedade?

HN: A mensagem que gostaria de deixar, sobretudo aos atletas, é simples: nunca desistam de vocês próprios. No desporto, como na vida, nem sempre as coisas correm como planeamos. Haverá dias em que o esforço parece não ser recompensado, momentos em que surgem lesões, derrotas, dificuldades ou dúvidas. Haverá fases em que sentirão que estão a dar tudo e, mesmo assim, os resultados não aparecem. Mas é precisamente nesses momentos que se constrói o verdadeiro caráter de um atleta.

As vitórias são importantes e merecem ser celebradas, mas não definem quem somos. O que realmente nos define é a forma como reagimos quando caímos. Os verdadeiros atletas não são apenas aqueles que levantam troféus; são aqueles que encontram força para se levantar depois de cada queda, que continuam a trabalhar quando ninguém está a ver e que acreditam no seu caminho mesmo quando tudo parece difícil.

Todos temos dias maus. Todos falhamos. Todos sentimos medo, frustração ou desilusão. Mas nenhum desses momentos dura para sempre. As derrotas passam, os obstáculos superam-se e as dificuldades transformam-se em aprendizagem. O importante é nunca permitir que um momento difícil defina todo o nosso percurso.

O futebol de formação e o futebol feminino têm uma enorme responsabilidade social porque ensinam exatamente isso: coragem, persistência, respeito, superação e confiança. Mais do que formar jogadores e jogadoras, formam pessoas capazes de enfrentar desafios dentro e fora do campo. Por isso, acreditem no processo, valorizem o trabalho diário e nunca deixem que alguém limite os vossos sonhos. Porque, no final, não serão recordados apenas pelas vitórias que conquistaram, mas pela forma como enfrentaram as adversidades e pela pessoa em que se tornaram ao longo da vossa caminhada

 

Por: Rui Hélder Gonçalves

(Advogado / Consultor Jurídico)

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