A pressa é a inimiga da perfeição… exceto quando a pressa é nossa
O Cronómetro Seletivo: A Nobre Arte de Parar o Tempo (Alheio)
Por: José Martins
Há uma máxima jurídica, atribuída a Aristóteles e lapidada por Rui Barbosa, que reside no Olimpo das intenções humanas: devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida da sua desigualdade.
É um princípio belíssimo, quase coreográfico.
Pena é que, no frenético ecossistema do jornalismo contemporâneo, a coreografia tenha sido substituída por um compasso decididamente mais… elástico.
Falemos, pois, da impossibilidade metafísica de concertar horários de publicação.
Coisa curiosa, esta física quântica das redações.
Quando a concorrência detém o exclusivo — o famigerado e suado “furo” —, o relógio do mundo parece sofrer uma desaceleração dramática. Clama-se, de imediato, pela ética da ponderação. Pede-se “tempo para cruzar fontes”, invoca-se o respeito pelos timings institucionais e, com uma solenidade quase eclesiástica, condena-se a pressa em nome da “qualidade da informação”.
O concorrente que publicou primeiro não é um repórter audaz; é um iconoclasta apressado que atropelou o bom senso.
Sentimo-nos vilipendiados, ofendidos na nossa dignidade cronológica. Como ousam eles ter fusos horários diferentes dos nossos?
“A pressa é a inimiga da perfeição… exceto quando a pressa é nossa.”
Contudo, a virtude é uma criatura maleável.
Quando a moeda cai do lado inverso e somos nós os bafejados pela deusa da exclusividade, o tecido do espaço-tempo rasga-se. A urgência passa a ser um imperativo categórico.
O botão “Publicar” é premido com a velocidade de um reflexo involuntário, às três da manhã ou em pleno almoço de domingo.
Os telefones dos visados que toquem; o mundo que pare. Afinal, a notícia “não pode esperar”.
Nesse preciso instante, a máxima aristotélica é aplicada com uma subtileza cirúrgica:
Os Iguais: Nós e o nosso furo (que merecemos a glória imediata).
Os Diferentes: Os outros, cuja pressa é apenas “falta de critério”.
Trata-se o diferente desigualmente, lá está, na exata medida da sua audácia em nos deixar para trás.
É uma dança charmosa, admitamos.
Uma partitura onde a concertação de horários é impossível, não por incompetência técnica, mas por conveniência estética.
Fingimos que jogamos todos o mesmo xadrez, mas guardamos secretamente o direito de alterar o valor das peças a meio da partida.
Resta-nos aceitar este fado com a classe de quem sabe que, no jornalismo, a igualdade é um conceito maravilhoso — desde que o nosso relógio esteja sempre um minuto adiantado.

Redação – Liga AmadoraTV
José Martins

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